
Noite de verão numa varanda sobre a Baía da Ponta de S.Lourenço, findo o jantar, como sempre magnifico, e sob o efeito do etilico as linguas soltavam-se na amena conversa sem conteudo de quem se sente entre amigos que já conhece hà muito.
De subito uma pancada num vidro fez o silencio e todos se voltaram para ver a causa.
No chão um monte de penas negras abanava as asas fracamente.
-Olha um melro preto!
-Mas os melros não voam de noite.
-Então só pode ser um Alma Negra, aliás Anjinho, como o chamam os pescadores.
Logo alguém levantou o pobre bicho que completamente grogui com a pancada, nem se tentava defender. Fosse uma gaivota e o atrevido teria apanhado umas boas bicadas...
Um exame de naturalista diletante demonstrou que se tratava duma ave jovem a
ensaiar os primeiros voos e encadeado pelas luzes da varanda veio bater no vidro.
Entraram em acção as maquinas fotograficas e o bicho empoleirado no meu braço foi fotografado de todos os angulos, tanto que assustado pelos flashes deixou um presente na minha camisola,(não de marca), de estimação.
Passada uma meia hora o Alma Negra, (nada sei do sexo do bicho pois para o saber é preciso ter estudos), começava a dar sinais de estar recuperado pelo que foi do consenso geral colocá-lo na falésia e esperar que levantasse voo.
E vem daí a minha empatia pelo Alma Negra (bulweria bulweri) que voa de noite, não teve medo do homem e não está em perigo de extinção.